Para Alfredo Moreira Filho, fundador e management do Grupo Valore+, existe uma contradição curiosa em muitas carreiras brasileiras: o país valoriza a estabilidade, mas boa parte de seus profissionais se formou justamente mudando de cidade, de estado e até de bioma. A trajetória dele ilustra bem o fenômeno. Começou na roça, em Igrapiúna, no Baixo Sul da Bahia, passou por Salvador e Ituberá, seguiu para Viçosa, em Minas Gerais, viveu em Itacoatiara e Manaus, no Amazonas, e em Tucumã, no Pará, até se estabelecer como empresário em Brasília.
Percursos assim não são raros no Brasil. A migração interna moldou regiões inteiras e levou técnicos, agricultores e empreendedores a ocupar fronteiras que, poucas décadas antes, mal apareciam nos mapas econômicos. O que se discute menos é o efeito dessas mudanças sobre quem as vive, já que cada território ensina algo diferente. Veja, nos tópicos a seguir, o que cada parada de um roteiro como esse acrescenta à formação de um profissional.
Do Baixo Sul a Salvador: o campo como primeira escola
Igrapiúna e Ituberá integram o Baixo Sul da Bahia, região conhecida como Costa do Dendê, cuja economia sempre esteve ligada à agricultura. Cacau, seringueira, dendê, cravo e mandioca fazem parte da paisagem produtiva local. Crescer nesse ambiente significa aprender cedo que o trabalho no campo segue o ritmo do clima, do solo e das safras, e não a pressa de quem planta.
Essa convivência com ciclos longos, segundo Alfredo Moreira Filho, deixa marcas duradouras. Quem acompanha uma lavoura do plantio à colheita entende, antes de qualquer curso, que resultados dependem de preparo, constância e tolerância ao imprevisto. Salvador, por sua vez, representa o contraste: a capital oferece escala urbana, acesso a estudo e o primeiro contato com um mercado muito maior do que a roça permitia imaginar.
Viçosa, polo das ciências agrárias, e a lição da autonomia
Viçosa, na Zona da Mata mineira, é uma cidade pequena com uma particularidade: sua vida gira em torno da Universidade Federal de Viçosa, uma das instituições de maior tradição em ciências agrárias do país. Estudantes de todas as regiões chegam ali, atraídos pela formação em agronomia, zootecnia e áreas afins.

Mudar de estado para estudar acrescenta uma lição que nenhuma disciplina ensina: a autonomia. Longe da família, o estudante administra o próprio dinheiro, o próprio tempo e as próprias escolhas. No caminho de Alfredo Moreira, a passagem pela cidade mineira aparece como ponte entre a origem baiana e o desafio que viria a seguir, bem mais ao norte.
Itacoatiara e Manaus: produzir onde o solo desafia a técnica
Itacoatiara, às margens do rio Amazonas, é um dos municípios mais antigos e relevantes do interior amazonense, com papel histórico no escoamento da produção regional. Manaus, por sua vez, concentra a atividade industrial impulsionada pela Zona Franca. Trabalhar com agricultura nesse contexto exige lidar com solos ácidos e de baixa fertilidade natural, chuvas intensas e uma logística que depende, em grande parte, dos rios.
É nesse cenário que a formação técnica é posta à prova. Soluções pensadas para o Sudeste raramente funcionam sem adaptação na floresta tropical úmida. Foi também no Amazonas que Alfredo Moreira Filho recebeu do CREA/AM o prêmio de Engenheiro do Ano, reconhecimento que mostra como a região pode transformar desafio técnico em referência profissional.
Da fronteira paraense ao centro das decisões em Brasília
Tucumã, no sudeste do Pará, nasceu de um projeto de colonização planejada, típico das frentes de ocupação que avançaram sobre a Amazônia oriental. Em lugares assim, quase tudo está por fazer: estradas, serviços, cadeias produtivas. Quem atua nessas fronteiras aprende a gerir recursos escassos e a tomar decisões com pouca informação disponível.
Brasília fecha o percurso com outra lógica. Capital administrativa do país, a cidade concentra órgãos públicos, entidades setoriais e empresas que dependem da proximidade com os centros de decisão. Chegar até ali significou, na percepção de Alfredo Moreira, reunir o que cada etapa anterior ensinou: a paciência da roça, a autonomia de Viçosa, a adaptação amazônica e o senso prático da fronteira paraense.
