Um ciclista decide encarar o Caminho dos Diamantes, trecho da Estrada Real que liga Diamantina a Ouro Preto, depois de anos pedalando apenas asfalto urbano nos fins de semana. A primeira surpresa chega ainda no planejamento: quase três quartos do percurso são estrada de terra, não a pista lisa que ele estava acostumado a rodar.
Rolando Bonaccorsi, executivo que combina rotina de operações de tecnologia com longas horas de bicicleta, apresenta que essa diferença entre o que o ciclista imagina e o que o percurso realmente exige é o primeiro obstáculo de qualquer travessia histórica como essa, muito antes de qualquer subida ou qualquer problema mecânico aparecer no caminho.
Um percurso que é majoritariamente estrada de terra, não pista
Os trezentos e noventa e cinco quilômetros do Caminho dos Diamantes se dividem de forma reveladora: pouco mais de um quarto em asfalto, uma fração mínima em trilha técnica, e a maior parte, quase três quartos do total, em estrada de terra batida através da Serra do Espinhaço.
Essa proporção muda completamente o tipo de preparação física e técnica necessária. Pneus mais largos, pressão calibrada para terreno irregular e uma bicicleta com geometria mais estável, como uma gravel, tendem a lidar muito melhor com essa realidade do que a bike de estrada convencional que o ciclista do exemplo estava acostumado a usar em seus treinos habituais.
Trocar de equipamento na véspera, sem qualquer teste prévio, costuma gerar outro tipo de surpresa desagradável: pneus novos, posição de selim diferente e peso extra de bagagem alteram completamente a sensação de pedalada, e descobrir esses ajustes durante a própria viagem consome energia que deveria estar reservada para o desafio físico do percurso em si.
A logística de abastecimento em trechos remotos
Diferente de pedalar em cidade grande, onde qualquer mercado resolve reabastecimento em minutos, trechos rurais da Estrada Real podem passar quilômetros sem qualquer ponto de apoio confiável, especialmente em dias de percurso mais longo entre uma cidade histórica e a próxima parada planejada.
Rolando Bonaccorsi destaca que essa distância entre pontos de apoio exige carregar excedente de água e alimento maior do que o ciclista normalmente levaria em uma saída urbana, aceitando o peso extra como parte inevitável da equação, já que faltar suprimento em um trecho isolado custa muito mais caro do que o incômodo de carregar alguns quilos a mais na bagagem.
O erro de subestimar a altimetria acumulada
Olhar apenas para a distância total de cada etapa esconde a variável que realmente determina a dificuldade do dia: a soma de subidas e descidas ao longo do percurso, frequentemente mais decisiva para o cansaço acumulado do que os quilômetros percorridos isoladamente.
No caso do Caminho dos Diamantes, quase metade da distância total do percurso é composta por subidas e descidas, uma proporção que surpreende ciclistas acostumados a calcular esforço apenas pela quilometragem plana de treinos urbanos. Rolando Bonaccorsi observa que essa é justamente a variável que a maioria dos iniciantes em cicloturismo ignora ao planejar etapas diárias, comparando quilometragem entre percursos completamente diferentes em termos de esforço real exigido.
Planejar etapas mais curtas nos dias de maior ganho de altitude, mesmo que isso signifique dividir o percurso em mais dias do que inicialmente planejado, evita chegar exausto demais para aproveitar o restante da viagem. Reservar um dia de folga a cada três ou quatro etapas de pedal intenso também ajuda o corpo a absorver o acúmulo de esforço sem comprometer os dias finais da travessia.
Por que a preparação começa meses antes da bagagem?
Nenhum desses ajustes, seja de equipamento, de logística de abastecimento ou de ritmo diário, funciona se for decidido na véspera da viagem. Assim, Rolando Bonaccorsi indica que treinar especificamente em terreno de terra, testar o equipamento de bagagem com peso real e simular dias consecutivos de esforço são etapas que exigem meses de antecedência, não semanas.
Quem trata a preparação para uma travessia histórica como essa com a mesma seriedade dedicada ao planejamento de um projeto complexo, mapeando riscos e testando hipóteses antes da execução real, chega ao ponto de partida com muito mais confiança do que quem confia apenas na disposição física acumulada em treinos de terreno completamente diferente do que a estrada vai realmente exigir.
